Folhas soltas de um Tenente...
ELSA
Uma surpresa agradável...
Hoje, ao acordar, os meus pensamentos viajaram no tempo e pararam temporariamente naquela tarde de Agosto 2001 num pequeno café de um bairro nos arredores de Lisboa.
Na companhia da minha esposa e três filhas visitávamos os lugares e pessoas que tinham marcado os meus jovens anos de pastor. Acabados de sair da casa de dona Lina entrámos no café para lanchar quando, ao empurrar a porta de entrada, eu tive uma das melhores surpresas que me poderiam acontecer.
Sentada a uma das mesas, ao lado da sua irmã Ester estava a Elsa. A doce, frágil, querida e timida Elsa.
Bem... esta Elsa que eu descrevo talvez não seja a Elsa que eu tinha à minha frente.
Esta é a Elsa que, cerca de 20 anos mais cedo, nos seus anos de criança e 'adolescente em principio de carreira', trazia à minha vida pérolas que hoje eu guardo neste cofre precioso chamado recordações.
Vários episódios gravaram na minha mente lembranças permanentes e agradáveis desta criança...
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… tão viva e ao mesmo tempo tão melancólica;
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… tão alegre e ao mesmo tempo e por momentos tão triste;
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… tão carinhosa e, a espaços, tão revoltada e decidida.
É verdade... a Elsa era um paradoxo e uma série de contradições em ela mesma. Talvez por isso mesmo a Elsa foi a criança que mais marcou os meus três anos de pastorado neste Bairro dos arredores de Lisboa.
Uma situação difícil...
A Elsa vivia com os seus pais irmãos e irmãs numa vivenda humilde situada numa zona pobre em desenvolvimento. A vida em casa não era o que se pode chamar um paraíso. Os irmãos já tinha acabado a escola e a vida activa trazia por vezes surpresas desagradáveis de desemprego e problemas próprios da juventude de então.
Devido às constantes discussões entre os diferentes membros da família a Elsa cultivou uma certa insegurança e receio que se manifestavam...
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… pela positiva, em provas de carinho e apego às pessoas que lhe dedicavam momentos de atenção e escuta;
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… pela negativa, numa defesa instintiva às situações bruscas e inesperadas que a levava a se fechar e sentir-se insegura e temerosa.
À noite, devido a esta insegurança e outros factores, acontecia ter certos percalços urinários que forçosamente eram um sinal de alerta para uma situação de tumulto e confusão na sua mente infantil.
Porém e devido à falta de preparação natural para fazer face e interpretar este tipo de problemas, a mãe, em vez de tentar compreender o porquê desses percalços, ameaçava-a que na próxima vez esfregaria urtigas na zona urinaria da Elsa. Este tipo de ameaças não eram feitas com maldade mas, como em muitos casos idênticos, os pais não estão preparados para compreender certas situações e esta era a única maneira que a mãe da Elsa, uma senhora que sempre me soube receber bem e que queria o bem da sua filha, pensava poder utilizar para resolver os problemas urinários da Elsa.
Infelizmente o problema da Elsa não se resolvia com esse tipo de soluções e o episódio seguinte descreve um pouco o porquê das coisas.
Tenente Jorge ajude-nos...
Nessa noite, eu estava tranquilo em casa quando alguém bateu à porta. Não me lembro hoje de quem foi mas sei que era um ou mais do que um dos irmãos da Elsa que, aflitos, me suplicavam:
Este tipo de situação acontecia regularmente nesta zona humilde e multi-étnica onde a coabitação entre diferentes raças (brancos e pessoas de côr vindos das colónias portuguesas) aliada ao desemprego e insucesso escolar originava situações de família conflituosas e difíceis.
Sem pensar duas vezes vesti o meu casaco de Tenente do Exército de Salvação, peguei na minha Bíblia (a minha arma e escudo de defesa, como eu lhe chamava na altura) e corri para acompanhar os jovens que, aflitos, viam em mim a tábua de salvação para uma situação difícil que infelizmente já se repetira noutras alturas.
Quando cheguei, a situação apesar de ainda estar explosiva, já se acalmara um pouco. A minha chegada contribuiu também para acalmar os ânimos e permitir um diálogo que, apesar de mais calmo, continha ainda uma tensão bem presente e de certa maneira ameaçadora.
Não me lembro de muitos detalhes dessa discussão porque passados poucos momentos os meus olhos descobriram a pequena Elsa, a um canto encolhida sobre ela mesma, petrificada de medo e a tremer tanto que o meu primeiro reflexo foi ir ter com ela, pegá-la no meu colo e apertá-la fortemente contra mim na esperança de a fazer sentir que agora estava segura e que nos meus braços ela não teria nada a temer.
Ainda agora sinto os seus braços se enrolarem a volta do meu pescoço e a sua cabeça se aninhar no meu ombro como que a procurar refugio e protecção contra uma situação que ela não compreendia. Ela estava em estado de choque e era urgente dar uma sensação de segurança a esta criança temerosa e perdida.
Lembro vagamente de ter ouvido alguém dizer que a Elsa tinha voltado a ter problemas urinários na noite precedente e que se voltasse acontecer, a ameaça de esfregar urtigas na Elsa seria cumprida. Senti a Elsa se retrair ainda mais e procurar no meu colo uma protecção extra, tal era a força que os seus pequenos braços de uma menina de 11 anos faziam sentir à volta do meu pescoço.
Os pais da Elsa, que entretanto começavam a aperceber-se da gravidade da situação, concordaram e nessa mesma noite a Elsa e a Ester vieram dormir a minha casa até que a situação se acalmasse entre os pais.
Um diamante chamado Elsa...
Nessa mesma noite, ao chegar a casa preparei uma bebida quente e bolachas para a Elsa e a Ester beberem antes de se deitarem. Enquanto elas bebiam eu fui preparar a cama, quando voltei as duas tinham já acabado de beber e comer e esperavam bem quiétinhas. A Elsa ainda tremia e lembro-me que fiz algumas brincadeiras para a fazer rir. O estratagema resultou e qual não era a minha alegria de ver o sorriso lindo da Elsa iluminar de novo o seu lindo e terno rosto de criança.
Antes de se deitarem, cada uma foi à casa de banho e eu disse à Elsa que dormisse sossegada que eu viria acordá-la a meio da noite para ir de novo à casa de banho.
Os olhos da Elsa arregalaram-se de surpresa.
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Não era fácil para mim, mas também não era o fim do mundo e de repente deixou de acontecer. Portanto não te preocupes, quando estás preocupada é quase normal que isso aconteça mas quando menos esperares isso passa e não volta a acontecer. Sobretudo não penses que a tua mamã vai fazer o que ela diz... Ela não teria coragem para o fazer porque ela te adora e só diz isso porque pensa que assim te ajuda.
Dei-lhe um beijinho e aconcheguei-lhe os cobertores para cima com carinho. Depois dei um beijinho à Ester e apaguei a luz principal do quarto com os olhos da Elsa fixados em mim de tal maneira que eu podia ler e sentir o carinho e a gratidão que esta criança adorável tinha por mim.
Encostei a porta e saí do quarto com a sensação que tinha valido a pena vir trabalhar para este bairro como pastor nem que fosse só para viver este momento e trazer a esta criança este sentimento especial de carinho, segurança e amor.
Este momento, qual pérola mais que preciosa entre outras pérolas, faz hoje parte do meu colar de recordações que eu guardo preciosamente no meu coração e na minha mente. Estas recordações enriquecem a minha vida quotidiana e através destas folhas soltas que ocasionalmente escrevo enriquecerão a minha família e as gerações seguintes.
Mais importante ainda... enriquecerão os meus momentos de velhice chegando eu lá.
Um momento de ternura...
Nessa noite, por volta das duas horas da manhã fui acordar a Elsa.
A Elsa levantou-se ensonada e foi à casa de banho. Passados poucos momentos regressou e aconchegou-se de novo debaixo dos cobertores.
Tenho a certeza que a Elsa não se lembra destas palavras mas eu não esqueço o sorriso lindo desenhado na sua face meio adormecida.
Tenente... Gosta ???
Na manhã seguinte acordei e preparei o pequeno-almoço para nós os três. Ouvi alguém se levantar e pouco depois ouvi o som do autoclismo na casa de banho. Passado pouco tempo apareceu a Elsa.
Esses três dias que a Elsa passou em minha casa foram dias inesquecíveis tanto para a Elsa como para mim. Nunca a vi tão feliz e talvez pela primeira vez eu tive a noção da alegria e do privilégio que é ter crianças em casa para nos levar a estar atentos e aproveitar cada momento da vida.
Lembro-me de ter chegado a casa depois de ter feito algumas visitas pastorais no primeiro dia e pela primeira vez, depois muito tempo ver a casa limpa, a cozinha arrumada e a loiça lavada.
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Uau!!! – Exclamei com surpresa.
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O Tenente gosta??? – Os olhos da Elsa brilhavam de alegria.
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Claro que gosto. Desde que vim viver para aqui que a minha casa nunca esteve tão limpa e arrumada. Tu vais ser uma óptima dona de casa Elsa.
Que mudança... o que na noite antes era uma criança aterrorizada, amedrontada e triste hoje parecia uma criança plena de alegria, motivação e vontade de viver e agradar.
De volta ao presente...
“A doce, frágil, querida e timida Elsa”...
Ao entrar nesse café de um bairro nos arredores de Lisboa em Agosto de 2001 esta foi a primeira imagem que me veio ao pensamento ao ver a Elsa. O meu coração sentiu-se invadido de uma alegria e tal ternura que por momentos me senti transportado no tempo cerca de 20 anos mais cedo e vi na minha frente a pequena e adorável Elsa.
Mas não fui transportado no tempo e na minha frente não estava a pequena Elsa. Ali estava uma linda jovem senhora de quase trinta anos, casada, mãe de dois meninos e aparentemente feliz e realizada.
Se a aparência física e a idade não eram as mesmas uma coisa não mudou. O carinho, a ternura e a gratidão que ela sentia em relação a mim e eu em relação a ela.
Nada mudou no interior, pois nesse momento, da mesma maneira que eu senti o carinho enorme que tenho pela Elsa, eu senti de volta a emoção que a Elsa sentiu ao me ver de novo.
Penso que também ela recuou no tempo e viu aquele Tenente Jorge nos braços de quem ela, então criança, encontrou carinho, confiança e alegria.
Por um momento estivemos sós os dois...
em corpo no ano 2001, porém... na mente... em 1981, diante de uma cozinha perfeitamente limpa,
Eu... surpreso e a Elsa feliz e satisfeita... a perguntar...
Esta é uma das mais maravilhosas folhas que fazem parte da linda arvore que é a minha vida.
Para a Elsa com muito carinho do Tenente Jorge....
Jorge Resende